Por volta de 1870, após surtos de doenças que afetaram as vinhas, a casta Isabel foi introduzida no Pico. As suas uvas tintas demonstraram grande resistência e garantiram colheitas abundantes. O Vinho de Cheiro, produzido a partir desta casta, deve o seu nome ao aroma característico. Estudos de ADN indicam que esta variedade terá resultado de uma polinização acidental entre a *Vitis vinifera* mediterrânica e a casta francesa Meslier Petit, uma rara uva branca associada à produção de champanhe, tendo origem em variedades americanas.
"Os locais consideram que a proibição teve sobretudo motivos de proteção comercial dos vinhos de castas europeias, e não pela qualidade."
Com a expansão da casta Isabel, a produção de Vinho Verdelho caiu de milhares para apenas algumas centenas de barris, ficando desde então limitada a pequenas zonas em torno da Madalena e de São Roque.
O Vinho de Cheiro é um vinho natural muito específico, geralmente produzido a partir de uma única casta e sem adição de açúcar. Com um teor alcoólico normalmente entre 6% e 10%, teve inicialmente pouco interesse comercial por parte dos produtores.
Apesar desta avaliação, o Vinho de Cheiro continua a ser muito apreciado localmente. Associado ao convívio entre famílias e amigos, mantém também um papel importante em celebrações culturais e religiosas, como as Festas do Espírito Santo, e em diversas receitas tradicionais açorianas. É parte integrante da história e identidade das ilhas.
Em 1995, a União Europeia proibiu a comercialização do Vinho de Cheiro no espaço comunitário devido a alegados efeitos tóxicos associados à casta utilizada, posteriormente considerados sem fundamento. Por essa razão, uma proibição semelhante existente em França foi levantada em 2003. Muitos locais consideram que a medida teve sobretudo motivações comerciais de proteção dos vinhos de castas europeias. Independentemente disso, o Vinho de Cheiro mantém uma identidade própria e um perfil de sabor distinto.
Por um lado, as vinhas estão protegidas pela classificação da UNESCO. Por outro, essa proteção implica, em muitos casos, a substituição das castas tradicionalmente cultivadas por outras variedades.
Existe, por isso, pressão de vários setores para levantar a proibição da produção de vinho a partir destas castas. Sem uma base científica sólida, esta restrição poderá até entrar em conflito com a própria proteção da biodiversidade local defendida pela União Europeia.
Como este vinho atualmente não é produzido comercialmente, quando muito de forma muito limitada, só é possível obtê-lo geralmente através de circuitos informais. Muitas famílias continuam simplesmente a produzi-lo para consumo próprio.
Atualmente, alguns produtores mais ousados voltam a produzir vinhos a partir da casta Isabela, comercializados como “A Proibida”, uma referência ao facto de a utilização do nome Isabela não ser permitida.
Mesmo que esta proibição seja revertida, os danos serão significativos, pois parte das vinhas já foi substituída por outras castas associadas aos apoios existentes. A qualidade da uva depende também do desenvolvimento do sistema radicular da planta: quanto mais antigo e bem estabelecido, maior a capacidade de influenciar a qualidade da produção. Por isso, a perda de vinhas antigas dificilmente poderá ser recuperada.







